quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Incrível Historia da Criança Recém-Nascida



Eu estava a varrer o hospital. Já era de madrugada, aproximadamente uma e meia da manhã. Foi quando entrou no hospital um casal pedindo urgência, pois a mulher estava prestes a ter um filho. Não sou um cara preconceituoso do tipo que julga as pessoas pelo o modo de se vestir, de se tatuar, se furar, ou até mesmo de se drogar; mas por aquele casal eu tive uma leve desconfiança de que eles não eram gente do bem.
Rapidamente dirigiram a moça para a sala do parto, e o homem acompanhou a sua mulher com um cigarro em sua boca.

- Sinto muito, mas você não pode entrar fumando aqui. – Disse uma enfermeira.

- Por que, porra? – Indagou o homem.

- Porque simplesmente são regras, meu querido. – Disse a enfermeira num tom imperativo.

Ele jogou então o cigarro no chão e o pisou. Ao entrar na sala do parto, bafejou aquela fumaça toda que havia inalado. A enfermeira quis falar algo, mas o médico lhe olhou como que dizendo: deixa pra lá; então ela se acalmou.

A mulher que estava parindo, estava com sinais de embriaguez, e o médico lhe advertiu dizendo que ela não deveria ingerir bebidas alcoólicas e muito menos fumar durante a sua gestação. A mulher deu de ombros; mas não se conteve, pois parecia odiar advertências; então disse:

- Você está aqui pra tirar este moleque ou fazer sermões? Já não basta a galinha da minha sogra pra emputecer a minha paciência.

O seu parceiro riu, mas novamente a enfermeira lhe olhou com uma cara que este, então, se calou.

Eu adorava presenciar partos. Era uma satisfação contemplar novas vidas chegando ao nosso mundo. Eu estava dentro da sala, fazendo uma horinha, e então assisti toda aquela cena.

O médico fez então o parto. A mulher chorava e ria ao mesmo tempo. O homem, agora, estava bastante ansioso para ver o seu primeiro filho a nascer, e então acendeu um cigarro. O médico foi puxando a criança, foi puxando; foi quando ela saiu; e quando saiu todos ficaram chocados com aquela cena, pois a criança estava toda deformada, suas mãos estavam atrofiadas, os dedos estavam todos tortos, suas pernas como a de um camaleão e seu rosto todo escuro devido a fumaça inalada pela a mãe. A mãe e o pai olharam horrorizados para o filho e disseram:

- Que desgraça é essa!

- Credo! Que nenê feio. – Disse o pai.

O nenê olhou para os pais, com os olhos cheios d´agua, e disse:

- Feio são vocês. Feio é o mundo.


Dizendo isso, o nenê recém nascido caiu nos braços do médico e veio a falecer instantaneamente. Talvez por ter sido desprezado pelos os seus próprios “pais”.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um Dia Obscuro



Ele chegou tão cedo naquele dia.  De fato me surpreendeu, pois ele só voltaria para a casa na semana que vinha. Sentou-se no nosso sofá e começamos a conversar como há anos não conversávamos. Pediu-me uma xícara de café e alguns biscoitos; ele simplesmente adorava. Disse-me as novidades do seu trabalho. Sobre as viagens que realizou; sobre a distância que sempre nos afastava e se lamentou muito chorando em meu colo. Advertiu-me que nunca, jamais me esqueceria, e que nunca me trairia; e que se algum dia, algo de grave acontecesse, para que eu não me desesperasse, pois ele estaria sempre do meu lado, fosse o que fosse. Abracei-o amorosamente e lhe pedi para que nunca mais falasse sobre isso, que ainda viveríamos muito, que sorriríamos muito e que ainda passaríamos muitos dias felizes como aquele, em que estávamos vivendo. Ele, de certa forma, concordou comigo e nos abraçamos mais forte ainda. “Não sei se você sabe, amor...”, disse eu a ele, “amanhã faremos cinco anos de casados”. “E como eu poderia esquecer isso, meu amor? Foi por este e outro motivo que justamente eu cheguei cedo de viagem”. “Ora”, Disse eu a ele, “e que outro motivo é este, posso saber?”. “Saberás no final do dia”, disse-me ele com um sorriso entremeado com uma breve tristeza.

Posso afirmar: aquele era para ser o dia mais feliz da minha vida. Relembramos, sentados no banco do jardim, todos os lindos momentos em que vivemos. O dia que nos conhecemos; o dia em que ele, todo tímido, pediu-me em namoro para os meus pais que o olharam com os olhos brilhando reconhecendo que ele era uma ótima pessoa; o dia do nosso casamento, marcado para sempre em nossas vidas. Lindos momentos.

Nem percebemos o tempo passar. A noite sorria e brilhava para a gente. Ele colocou a nossa música de casamento para dançarmos. Dançamos divinamente, e parecia que tudo aquilo era a primeira vez. Foi quando de repente ele olhou nos meus olhos e disse:  ”Por que você fez isto comigo? Me magoaste muito".  “O que fiz?”, disse eu. “Você sempre me traiu, eu sei disso”. Não sei como ele havia descobrido aquilo.

“Acalme-se”, disse eu, e fui pegar mais biscoitos. Ao voltar ao nosso jardim, vi apenas a cadeira de balanço vazia, sem ele. Ela ainda estava balançando. Os biscoitos e o café, que eu havia trazido ainda na primeira vez, estranhamente ainda estavam lá. “Que estranho, ele os comeu”, disse eu. “Amor! Amor! Onde está você, pelo o amor de Deus!”. Foi quando o telefone tocou, e eu corri para atendê-lo. Ao atender, recebi a notícia de que o avião dele havia caído.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Doentio Caso Dos Irmãos Disformes




- Esta intimação deverá ser entregue neste endereço... – Disse um cidadão de bigode espesso e hálito forte de tabaco e café. 

 Os dois policiais, Ulisses e Gabriel, se dirigiriam então ao endereço dado pela a sua chefia. Um endereço que o experiente policial Ulisses pegou com relutância. Ulisses era um daqueles caras que sempre evitava ameaças, riscos, lugares inescrupulosos. Para você ter uma ideia, em seus vinte e poucos anos de profissão, Ulisses nunca sacou a sua arma, e, obviamente, nunca atirou em ninguém. Conhecia a má reputação daquele endereço e sempre evitava passar por lá. Casos bizarros eram ditos por populares, tanto transeuntes como próprios moradores da área. Seres estranhos rodeavam a extensa viela de aproximadamente duzentos metros. Os mais supersticiosos diziam que os seres eram criaturas de outro mundo. Seres completamente estranhos e macabros. Possuíam os olhos ardentes como uma chama e suas cabeças eram idênticas a óvnis. Já os sensatos diziam que eram apenas sádicos e estupradores; possuidores de máscaras, que o que a viela precisava era de uma ronda diária de guarnição policial.

Ulisses contava tudo aquilo, com receio ao jovem Gabriel, novato e sedento a ação.

 - O que na verdade você teme, Ulisses? – Perguntou o policial Gabriel.

- Pode ser um conto popular – Disse Ulisses conduzindo a viatura policial e se dirigindo ao local ordenado pelo o chefe. – mas as mortes são verdadeiras. Tenho uma tia que mora naquela viela, cara. E ela afirma já ter visto várias vezes dois seres, um com a cabeça de porco e outro com feição de sapo, rondarem as ruazinhas de madrugada, provavelmente procurando vítimas.

 - Ora essa. – Disse Gabriel. – Quantos anos têm a sua tia?

- Isso é irrelevante dizer. O que é mais importante neste momento, meu caro, é que vamos bater na casa onde estes dois seres foram vistos, pois aconteceu mais um crime na viela na noite passada e vítimas afirmam dizer severamente que estes dois anormais vieram de lá.

 - Bom, mas quem mora na casa?

- Um idoso ranzinza demasiado misantropo. Dizem ser o mais antigo vizinho do beco. Depois que sua mulher e seu filho faleceram, de tuberculose, o velho se enclausurou com a sua filha mais nova em sua casa de uma tal forma, que poucos o viam. Anos mais tarde, foi á vez de sua filha, na época com vinte e cinco anos, vir a morrer.  A solidão, às vezes, esmiúça até mesmo um eremita, meu caro. Apelamos até para a maldade para não ficarmos só.

- O que você quer dizer com isto Ulisses? – Disse o jovem policial mostrando interesse pela a conversa.

- Nada, meu caro. Eu só quero minha aposentadoria, nada mais que isso. Só me faltam dois meses.

- Fale-me. Você tem algo em mente. Compartilhe.

- Não é nada. Só posso lhe afirmar que não estamos sozinhos nesta terra. – O jovem policial franziu o sobrolho bastante admirado. – Você, se estuda um pouco a antiguidade, há de convir que os homens adoravam seres completamente esdrúxulos, principalmente os egípcios. As esculturas em pedras são uma prova disso, bem como as artes desenhadas em grandes rochas. Lá podemos ver vários seres com um formato diferente. Homens com cabeça de lobo, metade homem metade cavalo. Enfim, várias deformações, e os homens os tratavam como deuses. Sim, Gabriel; aquele velho doente adora essas imagens e, de alguma forma, lhes deu vida.

 Gabriel lhe olhou de soslaio, muito desconfiado, e disse:

- Bela historia, Ulisses. Você quase me convenceu.

- Não seja sarcástico.

- Não estou sendo, amigo. Você realmente precisa se aposentar. – Disse o jovem sorrindo.

- Bom, é aqui. – Disse Ulisses parando o carro.

Os dois desceram e bateram na casa do senil idoso.

Não foram recepcionados. “Era de se prever”, disse Ulisses.

- Senhor, temos ordem de entrar em sua residência nem que seja a força. Por favor, colabore.

Quando os dois se programavam para derrubar aquela porta, ela se abriu lentamente causando um ruído agonizante. Os dois entraram cautelosamente. Ulisses mantinha sua arma em sua cintura, já o jovem Gabriel já havia sacado a sua.

- Guarde isso, seu imbecil. – Disse Ulisses furiosamente.

- Senhor, podemos conversar? – Disse Ulisses alterando a voz.

Mais uma porta se abriu, dessa a vez do segundo andar da casa. Os dois subiram e, enfim, encontraram o velho sentado em uma cadeira de rodas e em avançado estado de decrepitude. Uma luz fraca iluminava malmente o quarto lúgubre.

- Entrem. – Disse este.

Continuou...

- Queiram me desculpar por não ter ido lhes recepcionar, é que realmente não houve tempo suficiente. Porém lhes respondi. Ouviram-me?

- Não senhor! – Disse Gabriel.

- A minha voz já não é mais como antes! Mas digam-me, que privilégio de visita é esta, podem me dizer?

- Senhor, o senhor mora só? – Perguntou Ulisses.

- Praticamente.

- Ok, senhor. Tente colaborar com a gente. Na noite passada ocorreu um crime hediondo perto de sua localidade. Um homem teve a sua cabeça devorada. Peritos alegaram que a sua cabeça foi degolada por dentes. Um enorme animal o devorou.

- Bom, mas o que eu tenho a ver com isso, meu jovem? Você está me assustando.

- Testemunhas alegaram veementemente que o animal pulou o muro de seu quintal, e que logo depois sumiu.

- Meu quintal é sempre alvo de peraltas, senhor.

 - Sei, senhor, mas acontece que não é a primeira vez que eles pulam para o seu quintal. Os vizinhos acreditam que o senhor lhes dá moradia. Ter animais nocivos é crime.

Os olhos do velho se ruborizaram e suas veias pareciam que iam espocar.

 - Como ousa chama-los de animais, seu imundo! Lave a boca para falar de meus filhos.

- O QUÊ?

O ser de feição de sapo, então, surgiu e soltou uma gosma verde de sua boca em cima do jovem Gabriel que aos poucos foi se derretendo. Aquela gosma ácida aguou o pobre rapaz. Ulisses ficou petrificado com a cena. Surgiu, então, o seu irmão com a sua feição de porco.

- Suponho que esteja muito admirado, né soldado! Sim, com certeza. Ah, aquela vadia. Não era para ter terminado assim. Juro para você que não. Uma mãe jamais deve negar o seu filho, independente de como seja, concorda comigo soldado? – Ulisses meneou sua cabeça. – O primeiro a sair foi o Jimme, que os insensatos chamam diabolicamente de feição de porco. Depois veio o Jenny, o feição de sapo. Eu mesmo fiz o parto. Quando ela os viu, a maldita gritou como uma louca: “MONSTROS, MONSTROS, SÃO TODOS MONSTROS, MEU DEUS”. As crianças indefesas apenas choravam. Como pode uma mãe odiar um filho do modo como ela odiou! Com a mesma navalha que usei para tirar meus meninos daquela bruxa, enfiei no pescoço dela fazendo espirrar sangue sujo nos meus bebês. Ela serviu de alimento para eles. Em vez de leite, ela lhes deu sangue. As crianças lambiam aquele sangue imundo de suas mãos e do chão. Chupavam avidamente. E até hoje eles adoram o sangue. É o alimento deles.

- De quem você está falando? – Perguntou Ulisses, agoniado.

- De minha filha, soldadinho.

 Ulisses, que nunca havia sacado a sua arma antes, desferiu apenas um tiro no coração do velho lúcido.

As crianças, de fruto incestuoso, choravam pela a morte do amado e diabólico pai. Ulisses não teve coragem de atirar nas crianças. Pareciam indefesas lamentando a morte do pai satânico.


Por Patrik Santos

sábado, 26 de outubro de 2013

A Mulher Perfeita




E é com um estilete bem afiado que Eliot remove aquela pele macia, aquele rosto que por tantas vezes enlouqueceu, enamorou homens de todas as classes sociais. Eliot finca o objeto pontiagudo na cabeça de Rose, mulher de beleza natural, a mais linda da sociedade medieval, e dividi, separa aquela face, corta meticulosamente fazendo espirrar sangue por sua bata. Aquela face, antes feliz, orgulhosa por sua beleza, se torna frígida, perde-se a sua expressão, porém a sua beleza continua intacta. Eliot precisa apenas daquela fina camada, Eliot quer apenas a sua face. O resto Eliot jogará no rio de cor rubra. Não lhe interessa. O resto ele trata como um lixo.

As pernas detalhadamente torneadas de Margareth sempre hipnotizaram o contemplador de beleza Eliot. Porém aquela beleza lhe era única. Eliot só tinha olhos para aquelas pernas. Brilhavam, encantavam. Para retirar aquelas lindas pernas de Margareth, Eliot afiou um facão por semanas. Ela deveria estar bem afiada, pois só precisava de um golpe. Aquele golpe teria de ser um pouco acima da cintura, com exatidão em cima de seu umbigo, onde os ossos são mais frágeis, mais simples de se partirem. Aquele golpe dividiria Margareth em dois. O que Eliot precisava era apenas de suas pernas, e nada mais. Pare ele, o resto era lixo. Partiu-a. Com uma pequena serra, Eliot excluiu aquele sexo feminino e também lhe joga no rio. Detalhou as pernas e o guardou junto com a camada fina da face de Rose.

Os seios rosados de Julie eram excitantes. Mamilos perfeitos. Na verdade Eliot se apaixonou por quase tudo de Julie. Seus cabelos, seus braços, sua barriga e suas nádegas. Eliot desferiu um golpe tão forte na cabeça de Julie, que esta caiu desfalecida no chão úmido de sangue. Cortou os pulsos e puxou a pele de Julie. Eliot teve muito trabalho com esta. Precisava de toda esta região e lhe foi puxando sem descascar. Assim como se tira um coro de animal, assim Eliot puxou a pele da moça. A macabra cena foi encerrada com um golpe de facão na têmpora da moça. Eliot, como dito antes, precisava dos cabelos de Julie. Assim, o coro cabeludo foi retirado, e Eliot jogou o resto no rio, pois nada mais lhe aprazia.

Eliot adorou a filha do reverendo, e sabia, indubitavelmente, que a moça era virgem. Precisava daquela vagina. Eliot não teve tanto trabalho assim: perfurou com uma enorme agulha aquela cavidade e lhe tirou cuidadosamente, sem lhe corromper. Pronto! Eliot tinha aquela pureza em suas mãos.

Estava quase tudo pronto. Ninguém diria que aquele ser estava remendado. Era uma beleza sem igual, a mulher mais perfeita já feita, só lhe faltava uma vida. Mas para se ter uma vida, precisa-se de um coração e 
Eliot não encontrou este perfeito coração. E Eliot havia se esquecido deste pequeno, e ao mesmo tempo, grande detalhe.

Infelizmente Eliot não encontrou aquele coração, porém o procurou até os últimos momentos de sua vida, pois sabia que existia.

Por Patrik Santos

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Piso que Cedeu



- Que desvairada! O plano não era apenas enforca-la! Agora há vestígios de sangue por toda a casa.

- Acalme-se! Vamos limpar tudo isso imediatamente e embrulhar este presunto. – Disse a mulher.

Sons veem da escada do apartamento.
Toc, toc,... Batida na porta.

- Merda! Quem será? – Diz a mulher.

- Vou averiguar.  – Diz o homem.

Ao olhar pelo o olho mágico, o homem só consegue ver uma pinta negra.

- Porra! Alguém está tampando o olho mágico com o dedo. – Diz o homem.

- Pergunte quem é e despeça-o.

- Diga! O que deseja! – Diz o homem com a porta semiaberta atada por uma correntezinha.

- SURPRESA! – Dizem aproximadamente sete ou oito pessoas.

O homem solta um funesto sorriso com sua testa ensopada de suor, deixa cair um bilhete soberbamente premiado, e diz: “Só um momentinho”.

- Esqueci literalmente que hoje é meu aniversário. Familiares meu e de Rose estão aí fora para festejar essa merda. E fazia anos que eu não recebia uma festa surpresa. Puta que pariu; justo hoje!

- Rápido! Não á tempo de se lamentar.  – Diz a mulher, afoita. – Vamos despeja-la neste piso removível. Rápido!

Removem o piso. O homem segura as mãos e a mulher as pernas da morta e jogam o corpo, inerte, num espaço demasiado apertado.

- Vamos, Jonas! Abra a porta. – Grita um dos visitantes.

- Já vou indo. Só um momento.

- Droga! O espaço é muito pequeno. A cabeça vai ficar para fora. E agora, meu Deus!

- Vamos degola-la.  – Diz a mulher, de forma alguma, sugerindo aquilo.

- Você está realmente louca. Não vou fazer isso.

A mulher, então, vai até a gaveta, onde se encontra os talheres, e de lá tira uma enorme faca e enfia bem no âmago do pescoço da morta, e começa a degola-la friamente. A impávida moça era observada com espanto pelo o marido da morta.

- O que fizemos! – Dizia ele.

Ao terminar de degolar a mulher, a amante de Jonas pega a cabeça e a despeja na lata de lixo, que se localiza na cozinha, e rapidamente limpam o sangue com um alvejante, e dentro de dois minutos a cena do crime está incrivelmente remediada.

A amante de Jonas se escondeu em um compartimento da casa e Jonas, enfim, dirigiu-se a porta para recepcionar os visitantes.

- Boa noite, gente! Mãe, tudo bem? E você irmã? Oi sogra, oi sogro. Tudo bem cunhada? Oi sobrinho! E quem é este rapaz aí com você, cunhada?

- É meu noivo. Noivamos hoje, né amor!

- Sim. – Disse o homem com um sorriso benévolo.  – Prazer, Ruy.

- Prazer, Jonas. Queiram sentar, por favor.

- Onde posso pôr a comida que trouxemos, filho? – Perguntou a sua mãe.

- Ah, dei-me aqui, por favor. Deixe que eu ponha na mesa. – Respondeu Jonas.

- Onde está Rose, Jonas? – Perguntou a sogra deste.

- Bom, ela saiu para comprar algo. Vai ver é meu presente.

Todos sorriram consideravelmente. Jonas chorava por dentro.

- É realmente uma surpresa enorme. Eu jamais adivinharia que vocês viessem.  – Disse Jonas.

- Ainda bem que Rose sabe guardar segredo. – Disse a sua cunhada.

- Ora; então ela sabia?

- Sim, claro.

- Mas que cheiro forte de alvejante é este, filho? – Pergunta a mãe de Jonas.

Jonas hesita por alguns segundos e responde:

- Bom. Vomitei há uma meia hora atrás. O almoço do meu trabalho não me fez muito bem. Ainda estou um pouco pálido, como vocês podem ver.

- E parece que aqui teve uma luta corporal! – Diz o seu sogro reparando na bagunça da casa.

- Há, há, há. É verdade, Jonas. Você sempre foi um homem sistemático. Muito me estranha essa bagunça. – Diz o seu pai.

Jonas agora soa como uma panela de pressão.

- É o cansaço. – Responde Jonas de imediato.

- Em quê você trabalha, Ruy? – Perguntou Jonas ao noivo de sua cunhada com o intuito de desviar o assunto.

- Sou detetive. – Respondeu.

Jonas custou a engolir a saliva que o viera. Parecia uma enorme avalanche.

“Por que fui mudar de assunto!”. Monologou.

- Que ótimo! – Respondeu ele.

- Será que Rose vai demorar? – Perguntou a sua sogra.

- Logo, logo ela chega. – Respondeu Jonas.

Ruy mantinha uma expressão circunspecta. Pouco falava. Apenas observava.

- Oras, vamos pôr uma música, beber e dançar um pouco. – Sugeriu a irmã de Jonas.

Todos gostaram da ideia e uma música foi posta. A bebida foi servida pela a irmã de Jonas que servia os visitantes com uma bandeja. De repente foi até a cozinha para jogar um lixo fora. Quando ela ia pisando no pedal da lixeira para suspender a sua tampa e jogar o lixo, esta foi interceptada grosseiramente por Jonas que a empurrou violentamente.

- Por que fizeste isso, Jonas? – Questionou sua irmã.

- Desculpe irmã. A verdade é que não me sinto bem, mesmo. Deixe que eu jogue este lixo aí. Não se preocupe.

Os visitantes, visivelmente embriagados, dançavam com passos pesados sob o piso de Jonas. O piso começava a oscilar.

Jonas, enfim, se apercebeu que seu sobrinho havia sumido da sala de estar e da cozinha. “Que capeta”, disse. “Onde ele deve estar?”.

O garoto de dois anos havia ido, justamente, no esconderijo improvisado da amante de Jonas: no quarto. Quando a amante viu o garoto, correu para o único banheiro da casa que se localizava de frente ao quarto de Jonas.

- Onde fica o banheiro? – Perguntou Ruy a sua noiva.

- Ah, você pode ir direto naquele corredor que você vai parar lá. Fica de frente para um quarto.

- Obrigado!

Jonas procurava o garoto pelos três quartos da casa. Encontrou-o justamente no seu. Temeu por achar que o garoto houvesse encontrado sua amante. “Ela deve estar bem escondida”, pensou ele puxando a criança pela a sua orelha. De repente viu Ruy no corredor dirigindo-se ao banheiro.

- O... banheiro! – Sorriu Ruy.

- Pois não. – Sorriu forçadamente Jonas.

Quando Ruy abriu a porta do banheiro e ligou a luz, viu a amante de Jonas toda encolhida sentada ao lado da privada.

- Mas o quê você faz aqui, moça? – Perguntou ele.

- Bom...bom...eu sou doméstica da casa. Senti-me mal e vim ao banheiro, porém minha dor ainda não passou.

- Bom, desculpe-me. Vou me retirar.

- Não, fique a vontade, amigo. – Disse ela.

Ruy sabia, e agora tinha certeza, de que havia alguma coisa errada na casa.

Ao passar pela a cozinha, sobre os olhares de Jonas que estava na sala, Ruy avistou no chão várias gotas de sangue que vinham desde a sala até a cozinha, perto da lixeira. Ruy seguiu aquelas gotas sorrateiramente, e Jonas esbugalhava os seus olhos olhando-o. Ruy viu então, ao lado da lixeira, uma faca molhada de sangue. “Que estranho. Muito estranho.” Jonas sentiu o seu coração querer lhe sair pela a boca. Ruy virou-se e voltou para a sala de estar.

- Acabei de vê sua secretária no banheiro, Jonas. Acho que ela está passando mal.

- Secretária? – Perguntou juntos os pais e os sogros de Jonas.

- Mas você nunca teve uma secretária, filho! – Disse a mãe de Jonas.

- Bom, eu e Rose não estamos com muito tempo para cuidar da casa. Por isso contratamo-la.

- Apresente ela a nós, filho. – Disse a mãe de Jonas.

- Sim, sim. Vou chama-la.

- Este piso estar para ceder! – Disse a sogra de Jonas.

- Sim, está oscilando muito. – Acrescentou sua irmã.

- Mudando de assunto, - Disse o seu sogro – vocês sabiam que o ganhador da loteria de hoje é de nossa pequena cidade?

- Nossa! Não sabíamos. – Disse alguns.

- Hum, será que foi a Rose que ganhou e resolveu fugir do país? – Disse a cunhada de Jonas.
Todos sorriram, beberam e dançavam em cima de um cadáver sumariamente degolado.

- Aqui está a moça. – Disse Jonas apresentando a sua amante aos demais. – Ela se chama Ana.

Ruy, instintivamente, percebeu uma gotícula de sangue sobre a gola da camisa da moça.

- Prazer Ana. – Cumprimentou os convidados.

- Isto não é veste de doméstica. – Disse a cunhada de Jonas no ouvido de Ruy.

- Deverás. – Respondeu este.

Mais uma vez, por um incrível instinto que só os detetives possuem, Ruy percebeu um papel jogado bem próximo da poltrona em que estava sentado. Simulando atar seu cadarço, Ruy ajuntou aquele folheto. Quando vislumbrou do que se tratava, jogou-se consternado na costa da poltrona.

Ruy começou a ligar os fatos: Primeiro a demora para Jonas recepciona-los, segundo o seu, e de sua suposta empregada, mal estar e vômitos, terceiro a gota de sangue na roupa da mulher e na faca, encontrada jogado perto da lixeira, e quarto, e crucial condenação, o bilhete premiado da loteria. Sim, a sua noiva havia ironicamente acertado: Jonas matou a sua esposa para poder ficar com o premio de 50 milhões da loteria.

Agora era Ruy que pingava horrores.

Os dançantes dançavam insaciavelmente. De repente uma viga do piso se moveu. Apenas Ruy, Jonas e Ana perceberam. Ruy contemplou um dedo, com a unha pintada de vermelho. Estremeceu, assim como os criminosos. Jonas, disfarçadamente chutou aquele dedo de volta para debaixo da viga. Ruy se fazia de desentendido. Jonas pedia para os visitantes cessarem de dançar, porém em vão. O piso estava para desabar completamente. Desta vez vieram três dedos da defunta para fora. A criança, o sobrinho de Jonas havia novamente sumido. Os dançantes sorriam e jogavam bebidas no chão. De repente o pai de Jonas se escorregou e caiu  no chão, e justamente na hora o piso desabou e Ruy sacou sua arma com uma destreza impecável dando voz de prisão para os dois. Todos os presentes ficaram petrificados com a cena. Ruy, então, tirou as vigas e pôde se ver a morta sem a sua cabeça.

- Meu Deus! – Gritaram todos abismados com aquela cena.

- E a sua cabeça? – Perguntou Ruy – Onde você jogou?


De repente a criança chega até a sala, segurando a cabeça da mulher, sua tia, e a joga bem no meio da sala, fazendo escorrer sangue sobre os calçados dos convidados e dos criminosos. 


Por Patrik Santos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Espíritos Martirizados



São poucas as coisas que me lembro durante o tempo em que eu vivi naquela casa, pois eu tinha apenas sete anos de idade.

Tudo o que vou contar aqui são fatos reais que aconteceram há quinze anos atrás. Os relatos foram de minha família, principalmente do meu pai que era um cético perante o sobrenatural.

Chegamos naquele prédio numa tarde bem linda. De princípio nós nos mudaríamos para o Ap 104, mas como o antigo morador, de nome Álvaro, pediu ao síndico para que se mudasse para o 104, alegando que no Ap 105 o sol da tarde invadira o seu quarto e deixava como um inferno, o síndico prontamente assentiu com o pedido do morador que morava há bastante tempo naquele apartamento e que nunca causava problema nenhum e nunca havia se tornado um inadimplente.

O apartamento era lindo e, no entanto, o sol não causava tanto calor assim como aquele homem dizia.

 Para a nossa sorte, naquele dia de mudança fomos convidados pelos os moradores do segundo andar para uma festinha de aniversário. Meu pai não queria ir, mas de tanto eu e minha irmã, de oito anos, insistirmos, ele acabou cedendo.

Na festa, havia um garotinho fitando meu pai com uns olhos vermelhos de fúria. De repente ele começou a chamar meu pai para segui-lo. Parecia estar bastante preocupado com alguma coisa. Meu pai o seguiu. Saindo da festa, meu pai seguiu aquele menino que o chamava através de acenos desarticulados. O menino corria feito um louco.
Para a surpresa do meu pai, aquele menino entrou em nosso apartamento. “Impossível!” Disse meu pai. “Eu tranquei a porta.”
Entrando na casa, meu pai não achou o menino. Ele havia sumido. Procurou-o por todos os lados e não o encontrou.
De repente ouviu vozes de crianças vindas de seu quarto. Abriu a porta e percebeu que as vozes vinham do seu guarda roupa. Na verdade detrás dele. Estava a tremer de medo. Arredou o guarda roupa sorrateiramente e, com isso, as vozes pararam de falar.
“Devem ser os vizinhos”, disse. “Mas e o garoto?” Perguntou-se. “Onde ele está!”
Novamente as vozes. E agora o alarido ocupava cada compartimento da casa. Meu pai ficou branco como um algodão. Arredou novamente o guarda roupa e uma voz feminina lhe disse o seguinte: “AJUDE-NOS”.

Meu pai caiu para trás.

Não contou nada para a minha mãe no dia seguinte. Achou que aquilo não passava de um sonho; demasiado lúcido por sinal.

Certo dia, minha mãe estava só em casa. Eu e minha irmã estávamos no colégio. Meu pai no trabalho. Sentindo-se só, minha mãe ligou a Tv para relaxar um pouco, quando ouviu vozes que vinham da cozinha. Pareciam pessoas conversando. Ficou paralisada. De repente acordou da vertigem.  Entretanto, as vozes continuavam a conversar. Eram vozes ininteligíveis. Tomou coragem e foi averiguar o que estava acontecendo em sua cozinha. Chegando lá, encontrou a cozinha totalmente escura e a mesa coberta por uma toalha preta com três velas vermelhas, sete dias sete noites, acessas. Desmaiou.

Quando o meu pai chegou mais tarde, ela o contou tudo, mas este, cético, não acreditou em nenhuma palavra dela.

Á noite, novamente minha mãe se espantou. Dessa vez ouviu barulho de lousas. Parecia que alguém estava lavando elas. Foi até a cozinha e quando chegou lá, viu uma mulher com trajes de empregada doméstica lavando a sua lousa. Minha mãe fechou os olhos e deu um berro. Quando abriu os olhos, a moça havia sumido. No dia seguinte ligou para a sua mãe que lhe consolou dizendo que essas coisas são normais, pois quando alguém se apega muito a vida, e não aceita estar morto, ela sempre volta para acabar com os seus afazeres.

Na casa do nosso vizinho todos os dias escutávamos barulhos de objetos sendo quebrados. Briga de casal, dizíamos. Mas acontece que os gritos eram bem perturbadores mesmo.

Um dia meu pai chegou muito estranho em casa. Estava pálido. Nem disse bom dia a minha mãe. Entrou no banheiro e não saiu mais. Minha mãe, percebendo que ele demorava a sair, abriu o banheiro e só viu um gato preto sair de lá. Não era ninguém. Meu suposto pai havia sumido.

Numa noite, meu pai tentou se levantar para ir ao banheiro, porém não conseguia. Estava paralisado. Apenas seus olhos se moviam. Enfim percebeu que estava deitado de peito para cima. Sempre que dormia daquele jeito ele tinha pesadelos assombrosos, pois seu avô dizia que um demônio gostava de sentar na barriga de quem dormia assim; portanto era ele o causador dos pesadelos.
Ele tentava se mexer, mas não conseguia. “Será que estou sonhando?”, dizia-se. De repente ele começou a afundar em seu colchão. Ia descendo igual a uma areia movediça. Quando ele fechou os olhos, tudo voltou ao normal. Mas ao tentar firmar seus pés no chão, não conseguiu. Olhou para o chão e enxergou uma espécie de neblina, e nela havia várias mãos tentando lhe puxar para baixo. Provavelmente para o submundo.
Acordou no dia seguinte sem saber que se de fato aquilo tinha acontecido.

Na noite seguinte, aconteceu outro caso temeroso com meu pai:

Meu pai estava dormindo de bruços, para evitar pesadelos. De repente sentiu a cama se abaixar um pouco. Parecia que um leve peso havia se posto na cama. Logo começou a ouvir um suspiro de criança. De princípio, meu pai achava que era eu vindo se deitar em sua cama. Mas não era.

Era uma noite tempestuosa.
Meu pai disse bem baixo:

- Volte para a cama, filho. São apenas relâmpagos. Logo, logo vai passar.

Ele não obteve resposta, e de repente a criança começou a chorar.

- Volte para a cama e tente dormir, meu filho! – Disse novamente.

Sem respostas.

Levantou-se e olhou para aquela criança, mas não viu seu rosto, pois a escuridão predominava o quarto. Viu que o menino chorava sentado bem na beira da sua cama.

- Que foi filho? Volte para a cama. Logo passam esses malditos raios. – Disse ele em um tom solene.

A criança, então, soltou um grito assustador bem na hora em que um trovão iluminou todo o seu quarto. Quando viu o rosto daquela criança, por intermédio do raio dado, percebeu que era a mesma criança que o seguiu naquele primeiro dia em que fizemos a nossa mudança. Novamente a escuridão predominou o quarto, mas logo veio outro raio, e quando este foi dado, à criança já não estava mais sentada em sua cama. Havia sumido.




Á umas três semanas após a nossa chegada naquela casa, o vizinho, que havia trocado o seu Ap com a gente, cometeu um suicídio em seu Ap. Ficamos chocados com aquilo. Lembro-me vagamente disto. A família do homem, composta por sua esposa e um casal de filhos, estava viajando há quase um mês; logo saberão que não era bem isso.

Imagine você acordar de madrugada com a sua casa tremendo! Isso aconteceu com a gente. Meus pais foram cambaleando para o meu quarto. “O quê está acontecendo meu Deus?”, berrava a minha mãe. De repente vieram sons de pratos, xícaras e outros objetos se quebrando ao chão. Meus pais foram para a sala, com eu e minha irmã, todos nós de mãos dadas. Sentimos mãos demasiadas frias nos apalpar. A casa tremia literalmente, assim como um terremoto. Gritos de dor, desespero e agonia também estavam mesclados neste episódio aterrorizador. Choramos três dias, eu e minha mana, sem parar. Meu pai resolveu se mudar daquela casa imediatamente, porém o síndico nos instigou mais cinco dias, pois alguns documentos, que estranhamente foram extraviados, e que eram de extrema relevância, eram precisos para a nossa mudança.

Um dia, o piso da sala começou a ceder. Meu pai começou a puxar uma viga de madeira que já estava um pouco inclinada. Tirou uma, duas, primeiramente por curiosidade. Tirou outra e percebeu que alguma coisa estava errada. Sentiu um odor repugnante mesclado com um perfume bastante forte e mais algumas bolinhas de naftalinas. Depois viu um livro grosso com folhas amareladas que constatando, percebeu que era a Bíblia sagrada. O que fazia debaixo de um piso removível? Talvez fosse uma forma de abençoar a casa. Fanáticos religiosos usam cada meio para se livrarem dos maus espíritos. Pegou a bíblia com desconfiança e começou a folhear. Uma pagina estava marcada com um marcador de livro. Era no livro de Thiago e estava sublinhados em ênfase o capitulo 1 e versículo 15.

Assim está escrito:

Então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Tiago 1:15

Leu o texto e disse um tímido “Amém”. Puxando a quarta viga de madeira, viu um tecido que enrolava um objeto volumoso. Tentou puxar, mas o objeto era bem pesado. Tirou a quinta viga de madeira para facilitar a remoção do estranho objeto. O odor era bastante desagradável. Meu pai chamou minha mãe para ajuda-lo na remoção daquele fedorento entulho. Ambos estavam curiosos e aflitos. Puxaram com bastante força. O cheiro enjoativo fez minha mãe vomitar inesperadamente. Piorou quando viu que a sua mão estava infestada de tapurus, aquele inseto que se encontra facilmente em coisas podres. Na mão do meu pai também se encontravam essas larvas asquerosas.

Quando a minha mãe foi lavar as suas mãos com o álcool, ouviu o berro do meu pai dizendo:

- LIGA PRA POLÍCIA IMEDIATAMENTE!

Assustada, minha mãe correu para a sala para ver o que estava acontecendo.

 Chegando na sala, viu meu pai consternado e de joelhos no chão. Aquele pacote com um odor insuportável eram os corpos da família do homem que cometeu o suicídio. Jazia ali os filhos e a esposa do covarde senhor Álvaro, antigo morador de nosso apartamento. Matou-os por saber que sua esposa o traía com o seu melhor amigo.

Novamente meu pai leu o trecho da bíblia:


Então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Tiago 1:15



Por Patrik Santos

terça-feira, 2 de julho de 2013

Minha Gerada Paixão



Seus olhos refletiam um desejo inaudito que eu jamais poderei explicar. Talvez tenha sido seu sangue fervescente que pelo faro eu achei, afinal sou um ser completamente esdrúxulo. E ela se tornaria assim como eu por mera, ou talvez, por insana predestinação. E foi aquele olhar frio, quase sem vida, assim como o meu, assim como sou, que me chamou atenção. Aproximei-me furtivamente dela, e ela nem se deu conta de que surgi quase que como um espectro em seu lado. Segurei sua mão e ela sentiu algo frio, úmido lhe apalpar. Tentou me repelir, mas quando viu meus olhos fixando-a macabramente, se fez submissa e se entregou ao seu bel prazer. Ela estava cheia da monotonia dos mesmos rostos de sempre. Ela queria algo novo. Inovador. E achou-me.

O som estava ensurdecedor naquela boate dos anjos diabólicos. A banda tocava algo que eu jamais havia ouvido antes. A guitarra, ligada ao pedal de apenas um som de efeito metálico, berrava feito uma mãe ao ver seu filho se entalar com uma espinha de peixe. O baixo irritava até mesmo um ser em sua plena inconsciência devido estar ebriamente revestido de comprimidos e seringadas para lhe causar viagens alucinógenas. A bateria foi o ápice de minha tolerância. Batia desarticuladamente e fez-me se afastar e me desorientar. Mas bem no fundo eu estava adorando aquilo. Foi ao me afastar que eu a observei-a. Após tocar-lhe, como a pouco disse incisivamente, nossos opostos, de súbito, se atraíram. Foi muito fácil tirar-lhe daquele pseudo inferno para lhe levar ao, sem soma de dúvida, verdadeiro inferno.

Levei-a á meu habitat, lugar de lúgubre e perversa visão. Ela sentiu-se em casa. Foi se acamando e eu apenas a observando. Foi quando ela proferiu aquela frase que reverberou meus olhos rubros: “Deixe-me roxa de tanto me comer”. Não suportei aquela afronta. Parti para cima daquele corpo em chamas e ao sentir aquele fervor, deletei-me de suor e prazer. Disse-me enquanto eu a experimentava: “Você tem uma cara de maníaco psicopata. Tipo aqueles que seduzem e matam.” Fixei meus olhos em seus seios e ela continuou dizendo: “Por que você não sorri? Vou acabar acreditando que és, de fato, um psicopata.” Meus olhos se direcionavam agora para seu pescoço. Em estase, disse-lhe francamente: “Não sorrio, pois quando sorrio meus dentes se retraem e caem.” Ela sorriu euforicamente e eu a possui como jamais havia possuído outra. Finquei, então, meus afiados dentes naquele pescoço lindo e suculento. Seu sangue escorria fluindo para seus fartos e arredondados seios apetitosos. Minha língua deslizava por ela para deliciar aquele líquido que venero e suplico. Cada gota é demasiada importante, pois apenas uma pode salvar um ser indiferente como eu.

Senti o seu corpo se contorcer, foi então que peguei uma vela e lhe pinguei aquela cera quente por todo o seu corpo. Aquele ritual macabro, asseguro-lhes, foi mais fantástico do que um orgasmo. Seu corpo ficou enrijecido e, de súbito, frio como o meu.

Acordei seminu e não a vi. Quando olhei para o alto, vi-a pendurada de cabeça para baixo completamente nua. Criei-la. Ela seria a minha esposa, a rainha do mal. Dormíamos juntos em um caixão. Fazíamos amor ali mesmo, naquele claustro.

Tivemos noites maravilhosas. Porém elas foram ficando escassas. Sua presença foi se tornando fugaz a cada noite. Esqueci-me de alimenta-la. Era isso. Ela saia todas as noites para se fartar. Se eu fosse um cara mais vidrado em notícias, eu teria percebido tudo. Começamos a trazer indivíduos que curtiam uma transa a três. Foi o nosso meio de sobrevivência. Um dia era um sexo feminino, outro dia um masculino. Certo dia matei um antes mesmo de devora-lo. Senti um desgraçado ciúme por ela. Enterrei minha espada em seu pescoço que por muito pouco quase acertara a minha rainha. Desde aquele episódio, ela tornou-se indiferente comigo. Acordei com muita intuição certo dia. Minha intuição não falhara, pois me surpreendi segurando uma estaca que estava para se adentrar em meu escuro coração. Era ela que tentara me enfiar aquele instrumento. Puxei-a violentamente e fizemos amor á noite toda.

Ela sentia uma fome muito fora do normal. Começou a atacar perversamente inúmeras pessoas, até mesmo as que eu muito estimava. Sua força era descomunal. Assim como a sua sensualidade. Tinha o dom de enfeitiçar qualquer um com seu corpo demasiado atraente. Seus olhos encantavam o espirito e seu corpo excitava até mesmo um impotente.

Muito me aprazia o seu sexo. Tinha o cheiro do mal.

O que eu não sabia, e que jamais poderia imaginar, era que aquela formosura tinha uma paixão incógnita. Ela jamais havia partilhado aquilo comigo. Pegou-me de surpresa quando eu a vi com ele em meu caixão fazendo sexo. Apesar de eu ser este ser monstrengo, tenho sentimentos. Meu coração é morto, mas minha alma, apesar de estar sentenciada, ainda vive e move-se em mim. Descobri, com o tempo, que aquele sujeito era o seu amor, seu esposo, quando esta ainda era viva. Voltando a traição, que eu flagrara, imediatamente enterrei uma estaca no peito daquele sujeito. Ele morreu ali mesmo, ao lado dela. Segurei a mão da minha rainha, e ela pôde ver nos meus olhos toda a segurança e magia de um verdadeiro amor. Depois daquele funesto dia, vivemos felizes para sempre. Literalmente.


Para  A.P

Por Patrik Santos